Nas Embarcações

Cinema itinerante OLHAR E VER
Dia 14 de dezembro de 2003
Garça Torta,  Maceió-AL.

Foto: Luis Castelo

O melhor cinema do Brasil!
O piso é de areia branca.
O teto é o céu estrelado.
O ar refrigerado é a brisa do Atlântico, e na jangada parada... Imagens em movimento.


Na praia da Garça Torta, um público eclético: pescadores, professores universitários, ¨bichos grilos¨ e estudantes apreciaram uma mostra também eclética, com os filmes: “Heleno e Garrincha”, o episódio “Pisada de elefante” do filme ¨Veja esta canção¨, de Cacá Diegues, ¨São Luis Caleidoscópio¨, de Hermano Figueiredo, ¨A Matadeira¨, de Jorge Furtado e ¨Por longos dias¨, de Mauro Giuntini.
Uma impassível lua cheia dava uma de lanterninha. Na vela/tela : beijo na boca, transa, gol, violência, organização popular, alegria e morte... A imensa e contraditória vida brasileira, matéria-prima do nosso cinema.


Ao exibir o filme “A Jangada” de  Roland Henze, filmado no litoral cearense, tendo como tela a vela de uma jangada da praia alagoana de Garça Torta, os pescadores, alguns dos quais vêem o cinema pela primeira vez, a principio olharam incrédulos; depois encantados; depois orgulhosos ficavam acrescentando comentários ao que se passava no filme.  
 


  Cinema itinerante OLHAR E VER
Dia 13  de dezembro de 2003    Piaçabuçu-AL.

Foto: Luis Castelo
               Diferentes das velas do litoral, no Baixo São Francisco os chamados panos das embarcações são quadrados, no estilo holandês, em Piaçabuçu, última cidade que se avista do rio no seu caminho para o mar. Chamam-nas também de borboletas.
             Azuis, lilases, amarelo com marrom
             Verde fosforescente
             Incertas ao vento
             Borboletas de pau e pano
             Pousam e deslizam à flor do rio.
 

             Mas, foi por borboletas brancas que procurei naquela rua que parece praça, com seus banquinhos embaixo das árvores, que parece quintal de casa, com lavadeiras de roupas e pratos e pessoas tomando banho com sabonete e shampoo, porto de canoas e barcos. Visão extasiante do rio que ali passa largo, caudaloso e silencioso. Naquele dia a melhor vela branca que encontrei não estava tão branca, mas conversei com o dono que concordou em amarrar o seu barco para que não se mexesse muito.   
             Foi quando comecei a ajustar o projetor, testar a distância do foco, tamanho do quadro, entre outros preparatórios para exibição, que chegou outro pescador que me ouviu falar da precária brancura e do tamanho da vela. E aí disponibilizou a sua própria vela, que segundo ele era melhor que a do outro. Os dois discutiram até que o outro cedeu e ele foi buscar a sua vela. Após 15 minutos de espera, ele surgiu e a vela, acreditem! Era ainda mais suja e, embora maior, tinha um rasgão na parte inferior. Como a outra já tinha ido embora, foi o jeito aceitar a generosa oferta. Esse processo todo chamou a atenção do público que já aguardava impaciente o inusitado evento.  
            Mas não foi tão simples o ajuste da vela à direção do foco do projetor. Tentando trazê-la mais para um lado. O pescador desequilibrou-se e caiu com vela e tudo, virando a pequena embarcação. Os outros acudiram, levantaram a vela, desviraram o barco e por fim posicionaram e amararam a embarcação e logo depois, anunciei a programação. A luz colorida do primeiro filme tocava a quase brancura da vela e o pescador era agora um molhado e orgulhoso espectador. 

            Logo mais a tela era um porto virtual por onde chegou notícias e histórias de outras partes do Brasil. Gostaram de ver “São Luis Caleidoscópio”, numa viagem poética a cultura maranhense e à cidade de São Luis, e o episódio Você é linda, do filme “Veja esta canção”, de Cacá Diegues, que filmou ali “Deus é brasileiro” e estavam presentes na platéia alguns participantes do filme.
 
Realização:  Ideário Comunicação e Cultura
Curadoria: Hermano Figueiredo

Financiamento: 
Ministério da Cultura - Fundo Nacional de Cultura
Parcerias: SESC/AL - Serviço Social do Comércio
                 UFAL - Universidade Federal de Alagoas
                 Associação Casa da Arte (Garça Torta)
                 Associação Olha o Chico (Piaçabuçu)