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No Rio de Janeiro, em Recife e Salvador, a maioria dos sítios de pobreza são favelas trepadas nos morros, convexas e proeminentes. Em
Maceió (até nisso a elite leva vantagem), a pobreza é côncava, abaixo do nível da cidade.
As grotas são o avesso topográfico e o equivalente sociológico dos morros. De nomes estranhos, às vezes curiosos: Grota do Arroz, Grota do Rafael, Grota do Cigano. Lá é difícil descer saúde, bem estar, lazer e desce fácil esgoto, enxurrada da chuva, barreiras desabando e a polícia.
Nos morros se foge pra cima, nas grotas só cavando ainda mais profundo o fundo já tão fundo do chão, sem sequer ter o consolo dos que vivem pertinho do céu, esses sobreviventes das Alagoas fazem brotar a subversiva alegria dos bois de carnaval, a criatividade nas soluções da mais improvável arquitetura.
Ali não se joga fora quase nada. Não se desperdiça qualquer possibilidade da mais pequena alegria. E se alegrando ruidosamente é assim que eles recebem com efusividade o cinema que desce e que fala da grande vida brasileira, um cinema que faz rir, faz chorar, que distrai e faz pensar.
Adoraram “Churrascaria Brasil”, o curta de ficção se passa em uma favela carioca onde um grupo de crianças escapa por pouco da marginalidade. Mas o que mais gostaram de ver na tela foram os foto cromos deles próprios fotografados no dia anterior, pois eram eles os astros e estrelas naquele receptáculo onde antes só aparecia gente famosa.
Na
Grota do Rafael (uma favela de Maceió), preparava o projetor para a exibição
numa parede, quando janelas e portas da parte alta se abriram para ver o
filme e pessoas traziam de casa cadeiras plásticas e bancos de madeira.
De repente abriram espaço na multidão três homens carregando um imenso
sofá que colocaram à frente na posição que acharam melhor e numa grade
de cerveja vazia, a guisa de centro de mesa, depositaram um litro de
aguardente e 3 copos. Alguns se aproximaram para dizer que os três eram
“barra pesada”, mas a projeção transcorreu normalmente com risos,
gritos de espanto, aplausos e perguntas nos intervalos sobre os filmes
exibidos. Ao fim da sessão, os “barras-pesadas” fizeram questão de
ajudar a guardar o pesado equipamento e pediram que voltássemos sempre àquela
comunidade que ninguém iria bulir com a gente. |