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Paixão por cinema


Hermano Figueiredo

 


Assisti a primeira sessão do Elétrico Cineclube, na rua Augusta, em São Paulo e lembrei do que não vivi no antigo Cine Regência que funcionou ali e das canções dos Mutantes.

No interior de Pernambuco entrei num cinema da década de 20, onde o baronato local mandava vir do Recife espetáculos teatrais e até óperas. Tão conservado em suas linhas neoclássicas que até parecia estar a espera da próxima sessão. Gostaria muito de ver um filme no Cinema Guarani, na cidade de Triunfo, que também é nome de cinema, mas na cidade de Arapiraca, em Alagoas, onde o músico aposentado, contador de histórias e porteiro de cinema José Correia levantava a correntinha e fazia entrar sem  pagar, um por um, em escadinha, a sua numerosa prole.

 





 

Entrei no supermercado onde foi o Cinema Coliseu de Casa Amarela, um dos maiores cinemas de bairro de Recife. Pouca coisa lembrava o passado. Dirigi-me à seção de doces e peguei um drops de hortelã, não tinha de anis, como na antiga bomboniere.

No Cinema São Francisco, que tem nome de rio e não de santo, na histórica Penedo em Alagoas, imaginei os festivais nacionais que lá aconteceram na década de 70 e as ruidosas cerimônias de premiação. A tela, pela posição, era uma espécie de interface entre dois portos: o real, para o lado de fora e o virtual, do lado de dentro.

Na loja de artigos femininos que conservava a fachada original (com estátua e tudo) do antigo Cinema Éden, em São Luiz, Maranhão, só havia roupas de mulher expostas em todas as direções, mas por um instante parei e imaginei as divas do cinema saindo dos provadores.

Diante do Cinema Veneza, construído nos anos 70 para ser o maior do Recife, percebi pela ausência do título do filme no espaço para o letreiro e dos cartazes nos expositores que não haveria próxima sessão. Lembrei ali a divisão entre duas emoções, era a primeira vez com a primeira namorada que eu beijava de olhos abertos, olhando de viés para a tela mas, ela puxava o meu rosto. Entre as coisas que já quis recuperar na minha vida estão os fotogramas perdidos da laranja mecânica e emendar com a cola da imaginação aqueles beijos partidos. O que eu sentia por ela era ilusão. Já a ilusão cinematográfica, ilusão de movimento, história de ficção, foi um marco de absoluta realidade na minha vida.

Antes de entrar, contemplei a fachada do Cinema Capitólio, em Campina Grande, Paraíba, que ainda não é outra coisa, embora não mais o seja. Não tinha mais o maquinário, mas a velha tela e algumas poltronas ainda estavam no lugar. Achei tudo um pouco menor, mesmo sabendo que não mudara de tamanho. Eu é que sou bem maior do que quando lá estive pela última vez.

Nas matinais do Capitólio colhi alguns dos mais fortes componentes do imaginário da minha infância. Do lado de dentro: Tarzans, Sansões, Massistes, Spartacus, Cowboys e Jerry Lewis.

Do lado de fora, na calçada em frente, um sebo de revistas em quadrinhos era a possibilidade de compensação táctil para o que vira na tela e só podia levar na memória. Fixados em cores primárias para vista e revista, fantasmas, mascarados, homem morcego, homem elástico, homem de aço, homem aranha e o homem-homem que segurava minha mão dizia que eu podia escolher. Depois um mate gelado e doce no abrigo da praça ao lado e, mais tarde, na taça metálica da Flórida derretia o sorvete de baunilha enquanto o filme rebobinava em minha mente até que a primeira e a última página de um jornal aberto em bandas à minha frente se juntavam e o rosto do homem-homem aparecia em close-up anunciando a hora de tomar o caminho de casa, do aconchego do ambiente doméstico, onde abriria a janela eletrônica para outras emoções: uma família perdida no espaço intergalático, monstros japoneses, cientistas enfrentando os perigos das florestas com seus pequenos varões, príncipes submarinos e semideuses mas, nada me suprimia o desejo da imagem grande, inteira e compacta na sala escura.

(Agosto de 2000)